




III Encontro Anual do Fórum Amazônia Sustentável
28 e 29/10/2009 – Estação Gasômetro – Belém (PA)
AUSÊNCIA DO ESTADO, FALTA DE ORÇAMENTO E INEXISTÊNCIA DE UM PLANO GLOBAL DE DESENVOLVIMENTO MANTÉM ATRASO ECONÔMICO NA AMAZÔNIA
O III Encontro Anual do Fórum Amazônia Sustentável reuniu 300 pessoas, entre empresários, trabalhadores, cientistas, estudantes, governo e sociedade civil para discutir as perspectivas do desenvolvimento sustentável na região amazônica. Na abertura do evento, o diretor do Centro de Estudos sobre o Brasil Contemporâneo da Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais de Paris, Ignacy Sachs, ressaltou que o trabalho do Fórum ao promover o debate quadripartite é uma das maiores contribuições para se chegar a um modelo de desenvolvimento na região que seja sustentável, do ponto de vista ambiental e econômico, e includente em relação à população. “Se persistir o modelo econômico que predominou na região nas últimas décadas, a miséria tende a aumentar e, em breve, serão as pessoas que estarão ameaçadas de extinção”, alertou Sachs.
Considerado um dos mais destacados pensadores do desenvolvimento sustentável da atualidade, Ignacy Sachs defendeu que a busca de desenvolvimento sustentável na região é fundamental não só para o Brasil, mas para o planeta, que depende do futuro da floresta para manutenção de condições de sobrevivência, principalmente diante das ameaças das mudanças climáticas.
Sachs acredita que os caminhos para aplicar o modelo de "biocivilização moderna" à Amazônia dependem de medidas que vão desde a regularização fundiária até a revisão dos sistemas de transporte. Turismo sustentável e valorização da biodiversidade seriam formas de gerar trabalho e renda na região. O cientista também afirmou que é preciso fazer uma revolução tecnológica a partir de investimentos maciços e estímulo à educação científica. "Ao discutir o futuro da Amazônia, temos que olhar todo o leque de tecnologias, desde as mais simples até as mais futuristas”, disse. Ele apontou, ainda, para a necessidade de investir em pesquisa sobre a biodiversidade, implementar o zoneamento ecológico-econômico e exigir certificação para os produtos florestais.
Projeto nacional para a Amazônia
José Eli da Veiga, da Universidade de São Paulo, também participou de um dos painéis do evento. Para ele, falta um projeto nacional de desenvolvimento da Amazônia. “O PAC (Plano de Aceleração do Crescimento) é o único plano que o governo tem para pôr na mesa em relação à Amazônia’’, criticou o especialista. Segundo ele, a omissão do Estado brasileiro em relação a propostas de desenvolvimento na região deverá ser suprida, em parte, pelas empresas e ONGs que atuam na região. “Mesmo assim, o governo precisa estar presente, e não apenas asfaltando estradas e construindo usinas”, disse ele. Para Veiga, o Fórum Amazônia Sustentável poderia contribuir com um documento orientador para o debate sobre o desenvolvimento amazônico. Mas o desafio é grande, pois, segundo ele, “vamos ter de partir do zero; ou quase isso”.
O representante do Grupo de Trabalho Amazônico (GTA), Rubens Gomes, concorda que é preciso agir. “A sociedade está atenta e pode contribuir”, disse. Segundo ele, uma das ações sociais mais emergenciais neste momento é combater o desmonte da legislação ambientalista que está em curso no país. “O Fórum deverá se posicionar sobre isso em um documento que será enviado ao governo”, adiantou Rubens.
Orçamentos de varejo
Com 190 associados e representação de grandes empresas, o Fórum Amazônia Sustentável está se tornando um aglutinador de propostas para rediscutir o desenvolvimento na região. Para Yuri Feres, da rede Wall Mart, a Amazônia é estratégica, mas falta informação sobre como agir. “Por isso nos unimos ao Fórum e esperamos contribuir para a sustentabilidade”. Já para Fábio Abdala, da Alcoa, os empresários poderão agregar qualidade às propostas de desenvolvimento da região amazônica.
Adalberto Veríssimo, do Imazon, reforça que as perspectivas para o desenvolvimento da Amazônia passam pela necessidade do Estado destinar orçamento específico para a região e não apenas verbas esparsas, em projetos desconexos, como vem ocorrendo. “Chega de orçamentos de varejo. A Amazônia merece ser tratada em sua grandeza e complexidade”, disse ele durante o evento.
O exemplo que vem do interior
Em meio a críticas, o desenvolvimento sustentável na Amazônia também conta alguns pontos a favor de experiências que acontecem no coração da floresta. É o caso do município paraense de Paragominas. Depois de ter sido um exemplo de degradação ambiental e típico caso do modelo de desenvolvimento chamado de ‘boom-colapso’, o município a 300 km de Belém tornou-se um caso bem sucedido de pacto local pela sustentabilidade. Articulado pela prefeitura, o acordo envolveu governo, fazendeiros e poder Judiciário.
Conteve-se o desmatamento e o município diversificou suas atividades antes centradas quase que exclusivamente na extração predatória de madeira e pecuária. Hoje há grandes empresas na região e elas também estão ajustadas ao novo modelo de desenvolvimento impresso na localidade. “Não faltam leis para que possa agir direito na Amazônia. Isso tem. O que falta é vontade política” define o prefeito Adnan Demachki, um dos palestrantes do III Encontro do Fórum Amazônia Sustentável.
Os exemplos de iniciativas sustentáveis no interior da Amazônia também passam pelo empreendedorismo de visionários como Sérgio Amoroso, do grupo Orsa, que reergueu no Pará o projeto Jarí, fazendo do negócio do papel e celulose na Amazônia um caso bem sucedido de sustentabilidade baseado na combinação entre a geração de riqueza e a conservação da floresta. O Grupo Orsa é formado por três empresas e é membro fundador do Fórum Amazônia Sustentável. .
Fórum pede liderança a Lula no Acordo Climático Global
Entre os resultados do III Encontro destaca-se a assinatura de uma carta pedindo ao presidente Lula que assuma a liderança mundial por um acordo climático global ambicioso, justo e com força de lei durante a Conferência do Clima em Copenhague (COP15) no final do ano.
O Fórum Amazônia Sustentável, que promoveu diversas discussões sobre clima em sua agenda 2009, alerta o governo para o risco de fracasso da conferência do clima, da qual se espera que saia um compromisso real de todas as nações para enfrentar as mudanças climáticas que ameaçam a segurança do planeta. A carta considera que as recentes declarações de líderes mundiais no sentido de que as posições dos governos sejam adotadas de modo voluntário possam minar qualquer possibilidade de um acordo climático efetivo.
O Fórum acredita que o apoio de Lula é fundamental para que o acordo do clima não se resuma a uma carta de boas intenções, mas que seja um compromisso com força de lei internacional. Lembrando o discurso feito por Lula na última Assembleia Geral das Nações Unidas, o texto pede que ele diga aos demais líderes políticos internacionais que é inaceitável adiar as decisões que devem ser tomadas em Copenhague.
O III Encontro Anual do Fórum Amazônia Sustentável foi realizado com apoio de Agropalma, Alcoa, Banco da Amazônia, BNDES, Embaixada Britânica, Fundação Konrad Adenauer, Natura, Petrobras, Suzano e Wal-Mart Brasil.
Acesse a relatoria do evento: http://www.forumamazoniasustentavel.org.br/v5/arquivosdb/173205relatoria_iii_encontro_anual.pdf
Fotos (2)
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