O homem e o rio

Munido de uma grande vontade de conhecer o rio Amazonas em toda a sua extensão para poder contar isso ao resto do mundo, o jornalista Leonêncio Nossa, 36 anos, acabou embarcando em uma das maiores aventuras de sua vida. O resultado está no livro O Rio, uma parceria com o fotógrafo Celso Júnior, que acaba de ser lançado. Trata-se do seu segundo livro sobre a Amazônia. O primeiro foi em 2007, Homens Invisíveis, em que relata sua incursão pelas terras dos índios isolados, na fronteira com o Peru. Repórter do jornal O Estado de São Paulo, Leonêncio Nossa revela nesta entrevista exclusiva como vive o ribeirinho do colossal rio Amazonas.

Quando e como foi seu primeiro contato com a Amazônia? Quais as impressões que ficaram desse encontro.

Foi em 1999, para acompanhar o Quarup, a festa em homenagem aos mortos, no Alto Xingu. Lembro que passava as noites numa cabana à beira de um lago. Guardo dessa viagem as imagens das manhãs geladas, da névoa que encobria as águas, da alegria das crianças naqueles dias que pareciam intermináveis. Mas considero uma viagem a Manaus, em 2002, a experiência determinante. Foi quando conheci o rio Amazonas, naveguei pela imensidão de suas águas. Tudo nas margens parece igual e repetitivo. Mas eu não sabia que a monotonia pudesse ser tão interessante.

O que mais o instigou?
Eu me interessei pela Amazônia ao longo do tempo, como alguém que sente necessidade de saber mais sobre algo que lhe despertou um fascínio. Isso pode ocorrer em relação a pessoas, a livros, a lugares.

O seu primeiro livro sobre Amazônia trata dos índios brasileiros isolados na fronteira com o Peru. Você participou da expedição organizada pela FUNAI àquela região e viu tudo de perto. O Brasil está cuidando desses povos e de fronteiras naquela região?

A etnia Tikuna, a maior da região e do Brasil, com 26 mil índios, enfrenta dramas como o alto índice de suicídio, o alcoolismo, a fome, a violência. As tribos isoladas também enfrentam uma série de problemas e ameaças. A FUNAI sofre, há 20 anos, um processo de sucateamento. O sertanista é o profissional mais importante da carreira indigenista. Há alguns anos, o sertanista era o profissional mais importante da carreira indigenista. Hoje, não há um único sertanista oficialmente na ativa no Brasil. Os poucos que atuam no campo são do quadro de aposentados, em funções comissionadas. O governo não abre concurso para profissionais atuarem na área de isolados – sertanistas, indigenistas, técnicos em indigenismo. De 2002 para cá – ano em que viajei para escrever o livro sobre os isolados – Homens Invisíveis – e passei a acompanhar mais de perto a Amazônia -, o Estado brasileiro vem desmontando a rede de proteção à população indígena e uma tradição sertanista que se destacou pelas ações do marechal Cândido Rondon, dos irmãos Villas Bôas e, mais recentemente, de Sydney Possuelo.

Que lições você tirou sobre a política indigenista brasileira para a Amazônia?

O sertanismo cometeu muitos erros ao longo do tempo, mas é sem dúvida uma das experiências na área de direitos humanos mais fantásticas do século 20. O lema de Rondon “matar nunca” representou o questionamento de uma cultura de barbárie de quatro séculos nos sertões. A cultura da pistolagem e do massacre ainda é forte no país, em especial na Amazônia. O que parece uma frase comum e banal – não resolver um conflito com a força e a violência – significou, no entanto, uma evolução cultural e ainda é um lema que desafia a consciência nacional. Os indigenistas tiveram e têm papel fundamental em atenuar as consequências do avanço da fronteira econômica pelos territórios de comunidades nativas.

Neste seu segundo livro – O RIO – você o fotógrafo Celso Júnior fizeram o percurso do rio Amazonas, desde a nascente, no Peru, até a foz no estado do Amapá (Brasil). Como foi viajar cerca de sete mil quilômetros navegando um dos maiores rios do mundo?

É muito comum nos trabalhos jornalísticos sobre o Amazonas o autor destacar o ineditismo, a façanha de chegar a uma fonte, o desbravamento de uma região hostil e selvagem. Estávamos, na verdade, interessados nas histórias de vida nas margens do rio. Agora, não dá para negar que, durante a viagem, enfrentamos desafios típicos de uma aventura. Além dos sete mil quilômetros do Amazonas, navegamos lagos, afluentes e repetimos trechos do rio, totalizando dez mil quilômetros. O objetivo era entender um pouco a complexidade da bacia amazônica. A grandiosidade do rio, os superlativos, porém, não eram mesmo nosso interesse.

Imensidão: o rio Amazonas visto do porto de Parintins - Foto: Jaime Gesisky

E quais foram os maiores desafios que vocês enfrentaram?

O rio nasce a mais de cinco mil metros de altitude nos cumes nevados da Cordilheira dos Andes, no Sul do Peru. Ali, o desafio era enfrentar o soroche, o mal da montanha. Nas caminhadas pelo deserto do Altiplano, o coração dispara, você sente dor de cabeça, tonteira, chega a perder a lucidez. É necessário um período de aclimatação, o que nem sempre é possível. Depois, na foz, era preciso enfrentar tempestades e pororocas, o mar aberto.

E quais foram os momentos em que vocês, lá dentro, pensavam: “Poxa, valeu a pena ter vindo aqui”?

Foram naqueles momentos em que nos deparávamos com vilas e comunidades que não estavam registradas nos mapas. Há uma parte do rio bastante desconhecida, que inclusive não está detalhada pela cartografia, é justamente o trecho do início da selva peruana. Um dos momentos mais fantásticos da viagem foi encontrar um grupo de shipibos, índios da região do Ucayali descritos nos primeiros livros sobre o Amazonas.

E como vivem as populações às margens do Amazonas nos países por onde passa o rio?

O comportamento das pessoas que vivem às margens do Amazonas parece mudar como a cor das águas do rio. O morador dos Andes é fechado. No início da selva peruana, o homem é descontraído e aberto. Mais à frente, na selva densa, o ribeirinho se comporta como se fosse seu melhor amigo. Daí em diante, você encontra nas cabanas e palafitas a hospitalidade de uma gente que trata o viajante como alguém de seu próprio mundo. Quando se fala de Amazonas, a imagem mais forte que vem é a de um rio que passa por terras inóspitas e sem gente. Não é bem assim. Antes de chegar à floresta peruana, o rio já percorreu sítios arqueológicos de civilizações milenares. Viajar por suas águas é descobrir ocupações humanas difíceis de datar. O rio e suas margens formam um mosaico de povos, culturas, civilizações. Quem percorre o Amazonas percebe que as nações banhadas por suas águas se multiplicam e há forte presença de descendentes de judeus, árabes, europeus, asiáticos, africanos. O multiculturalismo pode estar presente mesmo nas áreas mais isoladas.

Você acha que os governos desses países têm sido consequentes na gestão desse imenso patrimônio natural e cultural?

Vejo esforços isolados de agentes públicos em diferentes esferas para atrasar o processo de destruição de nossos patrimônios. No Peru, tumbas milenares estão sendo destruídas pelos tratores das obras de represamento e irrigação das águas das cabeceiras do rio. No Brasil, grandes projetos prejudicam comunidades tradicionais e o meio ambiente. A cidade de Coari, à margem do Amazonas, é um exemplo de desenvolvimento a qualquer custo. A exploração de gás natural trouxe consequências devastadoras para a população. A cidade é a que mais arrecada impostos e royalties no estado do Amazonas e, ao mesmo tempo, apresenta os piores índices de desenvolvimento humano. É preciso pensar um modelo desenvolvimento diferente daquele do Brasil Grande, da época do regime militar. Se isso não é possível, pelo menos que se cumpra a legislação ambiental e o Código Penal. Os ativistas das áreas de direitos humanos e ambiental da Amazônia que mantiveram as ações em defesa da floresta foram deixados de lado pelas autoridades oriundas de movimentos sociais que chegaram ao poder nos últimos anos.

De modo geral, as pessoas não fazem nem ideia do que seja o rio Amazonas e sua complexidade – além do fato de que é um dos maiores rios do mundo. Há muito folclore e romantismo sobre esse misterioso rio. O que seria preciso ensinar sobre esse o rio nas escolas do Brasil?

É preciso mostrar o quanto o Amazonas está presente em nossa história, em nossos costumes, em nossas tradições. Embora seja um rio desconhecido em seu conjunto, o Amazonas sempre esteve ligado, desde os primeiros tempos da colonização, ao imaginário coletivo brasileiro, seja na forma de ilustração do desconhecido e do selvagem, seja como referência na produção cultural. Movimentos literários como o romantismo e o modernismo “beberam” da água do rio. Nós, jornalistas, contamos nas últimas décadas a história do processo de destruição da Amazônia, que continua a pleno vapor. Mas isso não é suficiente. Acredito que há outras formas também de mobilizar as pessoas para a defesa da floresta e do rio, uma delas é contar histórias complexas, falar de personagens fortes e apresentar a dimensão desse patrimônio cultural e natural que possuímos. O registro da beleza do Amazonas pode ajudar na formação de uma consciência crítica a ações de governos e grupos econômicos. O livro O rio relata dramas humanos e ambientais, mas fala também de histórias de pessoas sofisticadas e divertidas, de homens e mulheres que têm muito a nos ensinar.

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